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Luciano Sathler é professor
da Universidade Metodista de São Paulo e Vice-Presidente para América
Latina da WACC – World Association for Christian Communication.
Bacharel em Comunicação pela PUC-MG, Especialista em Gestão
de Marketing pela CEPEAD/UFMG, Especialista em Gestão Universitária
pela Organização Universitária Interamericana, Mestre
em Administração pela Universidade Metodista de São
Paulo e Doutorando em Administração pela FEA/USP.
O
que faz a Associação Mundial para a Comunicação
Cristã e de que forma ela atua no Brasil?
Luciano
Sathler - A Associação Mundial de Comunicação
Cristã é conhecida pela sua sigla em inglês: WACC
(www.wacc-al.net ou www.wacc.org.uk). Tem suas origens logo após
o fim da Segunda Guerra Mundial, na Europa, onde um grupo de líderes
religiosos se dispôs a combater a manipulação de massa,
como a conseguida pelos nazistas utilizando-se dos meios de comunicação
existentes à época, principalmente impressos, rádio
e cinema. A proposta da WACC foi de unir várias denominações
cristãs ao redor de propostas voltadas à comunicação,
cuja base ética permita a transformação social, a
leitura crítica da mídia e a democratização
dos meios de comunicação. Atualmente a WACC conta com cerca
de 800 membros espalhados pelo mundo, entre organizações
e pessoas interessadas na proposta dos Princípios Cristãos
da Comunicação, que são considerados universais pelos
apoiadores e participantes dessa rede. No Brasil e no mundo inteiro são
realizados encontros periódicos dos membros, para tratar de assuntos
diversos relacionados aos temas propostos pela Organização,
sempre a partir da perspectiva da comunicação, tais como
Direitos Humanos, questões de Gênero, combate ao racismo,
crítica aos fundamentalismos e promoção da mídia
comunitária.
De
que forma a WACC lida com as diferentes teologias já que se trata
de uma organização ecumênica?
Luciano Sathler - A WACC existe a partir de uma proposta ecumênica,
o que permite unidade na diversidade. Ou seja, é possível
encontrar pontos em comum que sirvam de base para combater a injustiça
social por meio da comunicação. Isso mesmo na convivência
de diferentes teologias e visões de mundo, especialmente no que
se refere às expressões de fé e compreensão
de textos sagrados. O objetivo é permitir que mais pessoas possam
melhorar de vida e serem respeitadas na sua integridade, usando-se a comunicação
como fator decisivo nesse sentido.
Que resultados concretos a WACC tem alcançado?
Luciano Sathler - São
milhares de projetos de intervenção social, por meio da
comunicação, que foram apoiados ao longo desses anos de
existência da WACC, em muitos países espalhados pelo mundo.
Também foram centenas de encontros, publicações,
cursos, campanhas e articulações que permitiram avançar
a discussão das temáticas que interessam aos comunicadores
cristãos, difundindo mais e, esperançosamente, tornando
as pessoas mais conscientes. As publicações da WACC demonstram
um pouco esses esforços e estão disponíveis gratuitamente
em http://www.wacc.org.uk/index.php/wacc/publications.
Quais foram os resultados do XI Congresso Latino-americano
sobre Religião e Etnia ocorrido recentemente na Universidade Metodista
de São Paulo?
Luciano Sathler - A WACC teve uma participação nesse congresso,
apesar de que não foi sua organizadora. Sempre buscamos inserir
nessas discussões a questão comunicacional, algo da maior
importância, especialmente no mundo das igrejas, onde a comunicação
faz mudar rapidamente o cenário das igrejas e da relação
dessas com sua membresia.
Qual a sua visão sobre a maneira como atualmente
a igreja brasileira se comunica com os mais diferentes públicos?
Luciano Sathler - Para entender as igrejas brasileiras e sua relação
com a comunicação, enquanto expressão organizacional,
talvez seja interessante pensar numa categorização que facilite
essa compreensão.
1) Existem as igrejas protestantes históricas, cuja ênfase
de comunicação se manteve predominantemente focada na mensagem
pastoral, no estudo compartilhado e pessoal da Bíblia e nas iniciativas
de igrejas locais. Contam ou já contaram com importantes iniciativas
comunicacionais, mas, geralmente, não nos meios de comunicação
de massa.
2) A Igreja Romana deve ser analisada em suas múltiplas manifestações,
pois existem, inclusive, ordens dedicadas prioritariamente à comunicação,
como as Paulinas, a Paulus e, no passado, os salesianos; crescem algumas
organizações para-católicas (de cunho religioso mas
fora da hierarquia eclesial), como a TV Canção Nova e a
Rede Vida; multiplicam-se serviços de rádio, Internet e
produção multimídia, como a Rádio Vaticano;
e permanece uma infinidade de veículos impressos, diretamente ligados,
ou não, à estrutura da igreja. Uma característica
da comunicação da Igreja Romana é que não
há uma articulação coordenada dessas várias
possibilidades, o que leva a uma descentralização de recursos,
esforços e objetivos que pode, às vezes, ser prejudicial
em termos dos impactos que poderia se alcançar de outra forma.
3) Entre as pentecostais e neopentecostais, existem aquelas que aderiram
tardiamente em sua história aos meios de comunicação
e as que adotaram o rádio, a TV e os meios impressos desde os primórdios
de sua existência. Quanto mais concentrado o poder de decisão
numa igreja, a tendência é haver maior foco nos seus esforços
de comunicação, geralmente de caráter predominantemente
proselitista. Certamente esse é um dos fatores que ajuda a explicar
o crescimento do número de evangélicos no Brasil, mas também
se abriu o espaço para ‘falsos profetas’, que podem
ser identificados por seu amor ao dinheiro e formação rápida
de grandes fortunas oriundas de sua atuação na liderança
eclesiástica.
A WACC também foca a atuação dos comunicadores para
o cumprimento da missão de suas igrejas locais e ministérios?
Luciano Sathler - Sim, mas poderia fazer muito mais se as igrejas abrissem
mais espaço para discussão de temas relacionados à
comunicação que não sejam exclusivamente de cunho
proselitista.
Qual é o maior desafio dos comunicadores cristãos brasileiros?
O que você diria para estes profissionais que nos lêem?
Luciano Sathler - O mesmo desafio dos demais comunicadores cristãos
espalhados pelo mundo: usar a comunicação para reafirmar
os Direitos Humanos, combater a injustiça social, a desigualdade
de acesso a recursos e oportunidades, se aperfeiçoarem para serem
capazes de realizar uma leitura crítica da comunicação
e multiplicar ao máximo iniciativas que ajudem as pessoas a se
conscientizarem sobre seu papel, para que assumam um protagonismo maior
no que se refere aos meios de comunicação de massa, às
mídias comunitárias, à comunicação
governamental e no respeito à diversidade cultural. Para tanto,
os profissionais de comunicação devem dedicar tempo e esforços
para se atualizarem, não só quanto aos aspectos técnicos
de sua profissão, mas especialmente quanto aos desafios éticos
que a Sociedade de Informação nos coloca na atualidade.
Sugiro a leitura do livro “Direitos à Comunicação
na Sociedade da Informação”, da Editora Universidade
Metodista, apoiado pela WACC e disponível na íntegra em
www.wacc-al.net/direitos.html.
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